domingo, 10 de março de 2013

Às variações



No mesmo momento que o relógio apontava a metade das dez horas da manhã ele acordou. Chegara às duas e meia de uma festa, bebeu o suficiente para atestar uma leve dor de cabeça; decidiu permanecer deitado, mesmo sabendo que não conseguiria voltar a dormir. Aos poucos foi relembrando alguns fatos da madrugada, tão próxima, mas já passada; dessa forma, respostas dos motivos para o despertar tão insosso, monótono que culminavam na vontade de ficar prostrado na cama, pensando, debatendo consigo mesmo, vinham à tona. Em todos os diálogos dele com ele próprio uma frase se repetia: “Você é um bosta!”


Àquela festa foram ele, o protagonista do fracasso, dois amigos, ambos altamente entusiastas e uma amiga, que ali só estava para encontrar um carinha que tinha conhecido em outro contexto de socialização forçada. Obviamente, além dos já citados, havia cerca de mais quinhentas pessoas no lugar; não cabe ao narrador enumerar precisamente, isso nem é relevante para a história, também. Dentro desse aglomerado, uma certa mulher chamou a atenção do nosso protagonista, como normalmente ocorre, não é uma pessoa tão crítica assim - até o ponto de se autosabotar - e a atmosfera ajudava a achar quase qualquer coisa apelativa atraente. Entram em cena os dois amigos, a amiga já havia encontrado aquele sujeito que citei; ela encontra-se desaparecida até o presente da narrativa.
“Está de olho em alguém, Protagonista (não vou inventar nomes)?” perguntou um dos amigos que poderiam muito bem ser a mesma pessoa; pronto, agora o são.
“ Aquela garota encostada no muro da esquerda...você conhece?”
“Não, mas podemos conhecer. Vamos lá, cara. Te apresento, conversamos com ela, com as amigas dela; vamos socializar, estamos aqui, pô!”
“ Desencana, para que eu vou lá? Provavelmente serei ignorado e você se dará bem, como acontece normalmente.”
“Pára com isso! e se me dou bem, é por que passo essa positividade, essa segurança.”
“Passa sim, cara. É disso que elas gostam, de caras que não tem vergonha alguma em assumir onde estão e por que estão em algum lugar.” o protagonista não foi sequer ouvido, provavelmente.
“Pare de falar bobagens! Ela está olhando para você também, cara.”
“Está vendo em quem ela vai jogar spray de pimenta hoje, eu pareço um bom alvo.”
“Desisto, cara! Estou indo lá falar com ela; fique aí!”
O nosso herói, obviamente, não permaneceu ali: primeiro foi ao banheiro, depois pegou mais uma cerveja e, para se livrar de qualquer constrangimento, fugiu para a sua casa às duas e quinze da manhã, praticamente na metade da confraternização. Chegou em seu domicílio, um apartamento de dois cômodos, alugado, onde morava com o seu gato, deitou na cama e depois de dez minutos já estava num lugar muito mais divertido daquele onde se encontrara anteriormente: nos seus sonhos, menos bizarros que a realidade.


O protagonista agora, ainda deitado em seu leito, pensava em como agira naquela madrugada. No momento tenta reconstruir a história em sua mente se, sem a ajuda de nenhum amigo entusiasta, tivesse, de fato, ido conversar com aquela garota.
Imaginou-se a aproximação, diria seu nome, faria perguntas triviais, ela diria que teria que acompanhar as suas amigas até o camarote, sendo que não existia nenhum.
Em outra variação, viu-se tendo uma conversa animada com ela sobre desenhos animados que os dois viram quando crianças. Depois, não sabendo mais o que falar, ela iria com as amigas até o camarote inexistente.
Outra variante: Ela assumiu que realmente tinha olhado para ele, assim como prestaria atenção em qualquer pessoa com um aspecto físico repugnante daqueles que poderia forçar alguma situação, sendo ela obrigada a usar o já citado spray de pimenta. Dali ela iria, supostamente, para o camarote.
Mais uma: Na realidade uma amiga daquela garota estava de olho no nosso herói, porém, essa pessoa estava um pouco acima do peso (então era ligeiramente crítico), não atraindo o protagonista que também é um babaca. Vendo aquela situação, todas as amigas decidiram inventar a desculpa do camarote.


Na imaginação do nosso protagonista, a bola de três que ele arremessaria iria girar no aro e não entrar; se fosse futebol, iria driblar três marcadores, mais o goleiro e mandar para fora de maneira vergonhosa; na faculdade de medicina iria desistir no último semestre por falta de motivação...iria sempre falhar em algum aspecto.
O que mais o deprimia era o fato de não conseguir ser bem sucedido nem nas suas divagações. Ele estava totalmente desencantado e falhava ao lidar com potenciais encantos. Fatalmente (para ele), levantou da cama, descongelou algo e comeu sem vontade alguma. Depois não sei mais o que ocorreu, desisti de acompanhar mais um fracasso, não só o dele.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

À criação



‘Sinceramente, não sei por que você faz citações não tendo essa habilidade. Primeiro, duvido bastante que Hemingway tenha falado tal coisa; segundo: caso você tenha tirado isso de uma criação artística dele, não foi o autor em si que disse, mas, sim, seu persona...’
‘Que bobagem! E através de quem o personagem fala senão pelo autor?’
‘Você está minimizando o trabalho de criação do escritor afirmando isso. Ele só pode, então, emitir os seus próprios pontos de vista, estando incapacitado, portanto, de criar inúmeras facetas através de suas personagens?’
‘Você sabe muito bem que o Hemingway era assim!’
‘Então ele não criou nada?’
‘Criou através dele mesmo.’
‘A partir disso você pode acusar qualquer escritor de qualquer coisa. Antissemitismo, homofobia, incitação à violência etc.’
‘O correto é deixá-los falarem qualquer merda?’
‘Todo mundo pode falar qualquer coisa! Somos teoricamente livres para nos expressarmos!’ – “nesse ponto eu já estava gritando, bufando de raiva.”
‘Você sabe que não é assim que funciona, meu bem’ – “odeio essas palavras carinhosas sarcásticas.”
‘Eu sei, ditadora!’
“Suspeito que nesse momento o clima para algum ato amoroso tenha se dissipado. Não havia mais vestígios dele, por mais que se procurasse. O que acontece é que não agüentava mais ter essas discussões. Ouviu o diálogo, não? é muito desgastante.”
“Você tem certeza que foi dessa maneira que o diálogo ocorreu?”
“Claro que não. É difícil lembrar exatamente uma conversa.” – eu tinha que admitir isso. No entanto, uma que foi criada e memorizada, nem tanto.
“Há uma possibilidade de você ter preenchido algumas lacunas com a sua imaginação, então?”
“Onde você quer chegar?”
“Olhe, não quero te chatear, mas existe a possibilidade dessa conversa não ter ocorrido dessa maneira, você concorda?”
“Eu já concordei, mas que diabos!”
“Mantenha a calma.”
“Estou calmo, ó mestre da psicologia.”
“Sarcasmo não demonstra um estado de tranqüilidade.”
“Pode demonstrar.”
“Não nesse momento.”
“Ok, doutora. Não sei por que você está tentando me jogar contra mim mesmo.”
“Não estou fazendo isso. Estou tentando apenas trabalhar em algumas falhas comportamentais que podem estar afetando o seu julgamento.”
“Muito bem. Porém...ela nunca leu Hemingway!
“Você não pode ter certeza disso.”
“Não, mas nem é esse o ponto. Até você está deturpando a nossa própria conversa. O diálogo com ela foi mais ou menos daquele jeito. Ah, já sei! Qual foi a versão dela?”
“Tenho que manter o sigilo entre mim e o paciente.”
“Você diz: o sigilo entre você e a minha namorada?”
“Sim.”
“Mas se você está me analisando através do discurso dela também, esse sigilo foi rompido. Ela está na sua mente.”
“Estou trabalhando com o discurso de ambos.”
“E depois vai dizer qual foi o mais plausível?” – eu estava me deliciando.
“Não é meu trabalho fazer isso."
“Desisto, podemos passar para a bobagem de como aquela discussão me afetou e blá,bl..”
“Infelizmente o nosso tempo acabou.”
Atravessando a rua do consultório, deparei-me com ela chegando para a sua hora de confissões. Fui ao seu encontro e perguntei: “De quem foi a idéia de fazer uma terapia de casal separadamente e com a mesma psicóloga?”
“Foi sua. Dizia que se fizéssemos conjuntamente iríamos brigar entre si e perguntar para a psicóloga quem tinha razão.”
“Pois é. Isso vem acontecendo, de qualquer modo, ainda que indiretamente.”
“Usou a sua versão do diálogo sobre o Hemingway?”
“O diálogo não era sobre ele em si, e sim a capacidade criadora...enfim.”
“Esqueça esse assunto. Depois te digo como foi a minha consulta. Após ela, iremos elaborar o que você dirá na semana que vem. Faremos conjuntamente, escutou?!”
“Será que ela ainda não percebeu nada?”
“Espero que não, isso está tão divertido! Nossos personagens estão evoluindo. Tenho que ir; nos vemos em casa.”
Despedimo-nos friamente. Manter o disfarce é importante.
Como será que a psicóloga irá nos classificar quando descobrir o que realmente ocorre? Mentirosos patológicos ou apenas criadores na vida vivida?

domingo, 6 de janeiro de 2013

À lista (segunda parte)

5) O falecido Mattia Pascal (1904) - Luigi Pirandello



   As peças de Pirandello são, normalmente, mais poderosas e demonstram melhor as ideias do autor, porém O falecido Mattia Pascal figura entre suas principais obras. Aquela que, entre os romances desse italiano, expõe de maneira mais agradável os seus preceitos. A agradabilidade funciona, obviamente, como força que nos atrai para a leitura. Pirandello não foi apenas um teórico do humorismo, mas colocou isso em prática em todas suas obras que li até agora, algumas vezes com mais precisão, outras com menos. No caso do romance aqui tratado, ele foi extremamente feliz não só no que tange ao humor, mas também, à tragédia escondida por trás dele.
   Mattia Pascal, protagonista do romance, vive uma vida medíocre e aproveitando-se de uma situação, decide fingir sua morte para assim ter a liberdade que tanto gostaria. Cria uma história, um novo nome, uma nova vida; ficcionaliza dentro da ficção. Obviamente ele irá esbarrar nas leis, nas perguntas sobre seu passado, o que ele é? Mattia ou Adriano Meis - sua nova identidade. Acaba não sendo nenhum dos dois em sua plenitude.
   Como já disse, ler sobre esse romance pode ser chato (pois é!), então sugiro a leitura dele, muito mais agradável, cômica e que levanta importantes questões sobre a unidade do ser, suas máscaras e a inevitável busca de uma liberdade plena e utópica. Uma obra-prima de Pirandello, sem dúvidas.
Do mesmo autor: Um, nenhum e cem mil é, para mim, muito mais teoria do que romance; Pirandello, através de uma personagem, coloca a prova seus ideais de que o ser uno não existe. Apesar desse aspecto teórico e até com certa didática, é uma leitura aprazível.

4) A trégua (1960) - Mario Benedetti



   Escrito em forma de diário, A trégua, do autor uruguaio Mario Benedetti, retrata, primeiramente, a vida opaca de um viúvo cinquentenário rumo à sua aposentadoria. Até aqui a obra não parece ser muito atraente, não? Porém, com toda a certeza, é. Os anseios, arrependimentos, as desilusões, a turbulenta relação com os filhos, vão se revelando com o decorrer dessa narrativa brilhante. Estamos diante daquilo que é o mais particular de um indivíduo, aquilo que, supostamente, não era para ser lido, mas o é: um diário. A força do romance também está nesse aspecto.Martín Salomé escrevi de si para si, não pensando em julgamentos posteriores de outrem; dessa maneira ele chega às suas aflições, dúvidas, percepções; não há motivos para enganar-se a si mesmo. Paro por aqui, como um grande amigo meu assinalou bem, a maioria das sinopses d'A trégua entregam o ouro, isto é, o que é essa trégua. Não vou fazer isso. Limitarei a dizer que o começo do descobrimento da trégua, aquele até meio epifânico, quando alguém se dá conta de algo anteriormente trivial, mas que se revela ulteriormente como vital, é um dos momentos mais lindos da literatura que já li.
   Um romance escrito numa linguagem simples, que flui com facilidade. Somos continuamente colocados diante de nossos sentimentos nesse romance que exprime o que muitas vezes o leitor gostaria de assinalar, através da escrita.
   Não se passando incólume por esta leitura, reflita se vivemos entre tréguas.
Do mesmo autor: Não cheguei a ler algum outro romance de Benedetti, infelizmente, porém aceito sugestões.

3) Memorial do convento (1982) - José Saramago


   Um dos maiores mestres da criação literária é o português José Saramago. Não só na criação, porém, também, no uso de acontecimentos históricos para, a partir daí, construir histórias incríveis (talvez realmente não críveis), não com uma pitada de ironia, sim provendo-se de tudo o que essa figura de linguagem pode oferecer: o ridículo, a hipocrisia, o riso que consiste na crítica velada etc.
   Em Memorial do convento, Saramago, usando como subterfúgio escrever uma obra sobre a construção de um convento em Mafra no século XVIII, inventa histórias paralelas maravilhosas. Somos inevitavelmente atraídos pelo pouco ortodoxo casal Baltasar e Blimunda, que se juntam ao padre Bartolomeu de Gusmão para a construção de uma passarola; ela voaria com o poder de várias vontades que seriam recolhidas por Blimunda, aquela com o poder de enxerga o interior das pessoas.
   Saramago não tem pudor em acrescentar personagens e objetos de caráter fantástico numa prosa realista. A passarola, as vontades, a figura do diabo; tudo isso tem um objetivo: de ressaltar certa realidade.
   É nesse romance também que há uma das passagens mais espetaculares que já li: "Em cima deste valado está o diabo assistindo, pasmando da sua própria inocência e misericórdia por nunca ter imaginado suplício assim para coroação dos castigos do seu inferno." O diabo assistindo ao trabalho subumano a que os homens estão sendo submetidos para que se construa um convento. Lembram-se da ironia? pois é.
   Acostumar-se com o estilo de Saramago pode exigir algum esforço, mas ele é extremamente válido. Depois que isso acontece, a leitura flui da maneira como o autor gostaria.
Do mesmo autor: Talvez Ensaio sobre a cegueira seja o melhor romance para que se comece a ler Saramago. Memorial do convento tem um começo levemente truncado que pode desanimar um pouco os leitores de primeira viagem. De todas as obras que eu tenho conhecimento do autor, nenhuma é fraca, o gosto de cada um que lê acabará diferenciando-as em termos de qualidade. A viagem do elefante, Caim, O ano da morte de Ricardo Reis, Jangada de pedra e O evangelho segundo Jesus Cristo são todas obras que você não irá se arrepender de passar certo tempo com elas, assim como eu não me arrependi.

2) Angústia (1936) - Graciliano Ramos


   Este é o romance que consolidou Graciliano Ramos como um dos maiores escritores da literatura brasileira. O escritor alagoano retrata nesta obra-prima a vida de um sujeito comum, Luís da Silva, que perde sua sanidade por motivos exteriores - uma atmosfera extremamente degradante toma conta da estória - mas, principalmente, pelos reflexos do que ocorre, ao seu redor e consigo mesmo, em seu interior. Quem vê tudo e conta aquilo que enxerga é o próprio protagonista; se algo o perturba, o acomete, por exemplo, isso será transferido para a obra. O que o acomete é a insanidade; o estopim é um amor materialmente roubado, porém, com o decorrer do romance, muitos outros fatores que afligem Luís da Silva vem à tona.
   A linguagem torna-se refém de uma mente tresloucada que o vai-e-vem temporal mostra com clareza. O protagonista vai perdendo suas faculdades mentais nesse processo de confissão e nos leva conjuntamente; percorremos seus delírios, atestados por imagens que aparecem muitas vezes em associações livres.
   O nome do romance define a sua atmosfera. Não é, definitivamente, uma obra simples de ser lida. Ela aturde, incomoda, mas quando adentramos o cerne de Luís da Silva, não há mais escapatória, somos presos por suas angústias. A tragédia do homem medíocre que não o queria ser; é isso que é encontrado aqui.
   Angústia é, disparadamente, o romance mais introspectivo de Graciliano Ramos, sem deixar de lado as indisposições que o meio externo causa. Por conta desses fatores que considero esta a maior obra do escritor alagoano. Com toda certeza é um dos romances mais poderosos, que mais me afetarem durante a leitura. Ele é altamente denso, mais nos temas que trata do que na linguagem empregada; esta ainda é, na medida do possível, essencial para as impressões que o autor quer passar; como Ramos sempre escreveu: sem exageros, meticuloso, um mestre, um escultor de palavras.
Do mesmo autor: São Bernardo e Vidas secas são leituras indispensáveis para quem aprecia a obra de Graciliano Ramos. Adiciono, ainda, como essencial, a autobiografia romanceada Infância. Talvez o seu mais belo livro.

1) Crime e castigo (1866) - Fiódor Dostoiévski

    
   A grandíssima literatura russa não poderia estar fora dessa lista; ou melhor, o maior pensador da literatura ocidental, aquele que deu base à teorias filosóficas, principalmente a existencialista, que só seriam debatidas mais a frente, aquele que analisou psicologicamente o ser humano com profundidade raríssimas vezes encontrada: Fiódor Dostoiévski.
   Em Crime e castigo nos deparamos com a história do jovem intelectual, porém, pobre, Raskólnikov que elabora uma teoria no mínimo interessante, que acredito pela qual muitos são adeptos; ele divide a raça humana em dois tipos: a dos ordinários e a dos extraordinários, sendo que esses últimos se encontram em um número excessivamente menor e, por serem superiores, tem o direito de violar códigos morais. Partindo da pobreza que assola a si e a sua família, e vendo-se como extraordinário, o protagonista decidi matar uma velha agiota, parte da escória da sociedade. Entretanto, não só mata a ela, mas também a irmã da velha, pois ela o viu cometendo o delito. Tirar a vida de uma inocente não estava em seus planos. No entanto, o homem superior teve de fazer isso, caso contrário iria para a cadeia, cumpriria uma pena longa, o que a sua própria teoria rejeitava que acontecesse com sujeitos do seu tipo.
   O castigo de Raskólnikov é rigorosamente psicológico. Ele não consegue lidar com o seu crime, vê-se angustiado, febril, aturdido, delirante. Sua vida se instala num inferno, a luta se trava entre ele e sua consciência, num fluxo de pensamentos que tende a enlouquecer um pouco até o próprio leitor.
   Além dos pensamentos de Raskólnikov, Dostoiésvski revela diversos pontos de vista em diálogos extremamente densos, entre eles os mais intrigantes ocorrem entre o progonista e o investigador Porfíri.
   As obras desse escritor russo suscitam até hoje debates, que, creio eu, não irão terminar, por conta da profundidade de suas discussões. Ele coloca à prova o ser humano e suas várias contradições, como ele mesmo as tinha, tratando de religião, moral e outros preceitos vigentes em nossa sociedade que podem levar a autodestruição do ser.
   Crime e castigo é denso, pesado, longo, porém extremamente interessante. Exige muitas vezes que o leitor pare, tome um fôlego, reflita e continue. Assim como em Angústia de Graciliano Ramos, não é a linguagem o principal empecilho para a adoração da obra, mas, sim, do que a obra trata, como ela a faz, o que ela suscita. Uma obra-prima de 1866 que se encontra sempre atual.
Do mesmo autor: Acredito que Os Irmãos Karamázov sintetiza melhor o que é o romance, aquele gênero que pode abarcar todos os outros. Nele tudo cabe: poesia, contos paralelos, memoriais, música etc. Além disso, essa enorme obra apresenta, acredito, os três personagens mais fortes da história da literatura, os três irmãos. Ademais, destaco das obras que li de Dostoiévski: Notas do subsolo, Memórias da casa dos mortos, O idiota e Os demônios.

(Cometi, provavelmente, muitas injustiças aqui; mas é isso, espero que tenham gostado da lista. O que posso atestar sem medo de errar é que são todos romances com alto valor qualitativo. Entretanto, vocês podem gostar ou não deles; essa já é uma questão mais subjetiva; porém, observar que todos têm seus méritos é de extrema importância. Abraços)

Link para a primeira parte da lista: http://www.aolugaralgum.blogspot.com.br/2012/12/a-lista-primeira-parte.html

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

À lista (primeira parte)

   A existência desse blog assaltou-me e - ao invés de roubar algo, como aquele verbo comumente infere, deu-me uma ideia - a de postar algo por aqui. Pensei em alguma estorinha que ocasionalmente, devido aos enormes hiatus no qual esse espaço sofre, dá as caras por aqui. Entretanto, na preguiça do criar jaz meu corpo, por conta disso resolvi fazer uma lista, sim, uma lista! Sobre o quê o leitor fantasma perguntaria. Sobre os 10 romances de maior qualidade que - obviamente - já li nesse período de tempo, nem tão grande, mas, consideravelmente razoável, a que me dedico à leitura de obras literárias. Levando em conta que só posso enaltecer aquilo que conheço, no caso, aquilo que li, é difícil alguém ter algum conflito no que tange às minhas escolhas, a menos que esse alguém tenha conhecimento de, pelo menos, grande parte da minha carga de leitura feita até o presente momento. Meu intuito não é, de maneira alguma, suscitar discussões menos brandas, porém, sim, tentar, de alguma forma, a partir dessa lista, incentivar o conhecimento dos livros que aqui serão citados. Espero comentários, mesmo que sejam para ir contra minhas ideias; debates normalmente são frutíferos. Fiquem à vontade para dar dicas de obras também, elas sempre são bem-vindas.
   As escolhas foram árduas e é importante frizar que, do primeiro ao décimo, se fosse uma corrida, poucos milésimos de segundos os separariam.
   Dividirei em dois esse post: o primeiro, obviamente, do décimo ao sexo, e o segundo, o restante. Faço isso com o pensamento de não ser tão enfadonho.
   Não é meu objetivo mencionar 10 romances que devem ser lidos antes morrer ou algo com tal dramaticidade; o meu critério foi subjetivo, os romances que mais me atraíram estão aí, me desculpem se deixei de fora vários cânones da literatura mundial, mas os romances listados aqui foram de mais valia no que tange ao meu agrado, apenas isso.
   Por último, decidi escolher apenas uma obra de cada autor, para que haja certa diversificação autoral. Entretanto, não deixarei de lado obras grandes dos autores que conheço mais aprofundadamente.

10) O passado(2003) - Alan Pauls



   Para o décimo lugar fiquei entre duas obras: esta e  Dois Irmãos de Miltom Hatoum. Como a literatura contemporânea brasileira estará aqui presente, decido ceder espaço à contemporaneidade literária argentina com a genialidade de Alan Pauls. Lançado em 2003 em seu país de origem e em 2007 por aqui - pela Cosac Naify - O passado trata principalmente de Rímini que, sem explicações maiores, separa-se de Sofia após 12 anos de relacionamentos. O romance é uma construção persistente do passado, o foco da narração, na maioria da obra, estabiliza-se em Rímini, porém a sombra, Sofia, está presente como coadjuvante dentro, mas, também, persistindo exteriormente no protagonista. Fotos, muitas foram tiradas, após o rompimento cabem aos dois decidir como se dará a separação dessas milhares de imagens - o passado físico. Não entrarei em maiores detalhes sobre o enredo, mas as desventuras, as estórias em paralelo, o estilo único de Alan Pauls: tudo isso faz com que essa obra seja única, uma explosão de sentimentos levada às últimas consequências em suas descrições.
Do mesmo autor: A história do pranto também vale a pena, seria até interessante lê-lo antes de O passado, para que o estilo de Alan Pauls seja conhecido e não haja tanto choque.

9) Amada (1987) - Toni Morrison


A vez agora é da literatura americana e de seu contexto político-social retratado de maneira chocante em Beloved (br: Amada). Romance que também nos leva ao passado, sendo ele cruel, demasiado traumático. Sethe, a protagonista da obra, foge da fazenda onde era escrava, no sul dos EUA, para o norte e ,assim, obter sua liberdade. Toni Morrison narra com brilhantismo a saga de Sethe e outros (ex) escravos, colocando em questão a permanência do trauma na mente de homens e mulheres que passam por situações subhumanas, apenas com o objetivo de sobreviver. O trauma se materializa na figura de Beloved, uma jovem que aparece sobrenaturalmente em frente a casa de Sethe.
Da mesma autora: Infelizmente não li mais nada de Toni Morrison, mas logo o farei, pois apenas a leitura de Beloved me cativou fortemente. Agradeço se houver alguma sugestão de leitura.

8) O encontro marcado (1956) - Fernando Sabino


    Não é tão simples assim encontrar autores que escrevam com tanta simplicidade, mas, ainda sim, abordando temas extremamente relevantes de maneira aprofundada; um deles é Fernando Sabino, que não é lá tão prestigiado na maior parte da crítica literária. O encontro marcado é um romance de uma vida, a do protagonista, Eduardo. No estilo informal de Sabino, a leitura nos atrai mais e mais, as façanhas, frustrações, dúvidas, intermináveis conflitos internos de Eduardo são espelhados diretamente para o leitor. O grande triunfo desse escritor mineiro é conciliar brilhantemente uma linguagem coloquial com temas de certa profundidade. É um romance que não deve ser lido, apenas o é por ser encantador, atraente a partir da primeira página. Essa obra nos busca no nosso âmago: é impossível passar ileso por ela.
Do mesmo autor: Sabino escreveu principalmente crônicas e contos, com qualidade inquestionável. Porém, já que estamos lidando com romances, O grande mentecapto é de uma leitura deliciosa. Vale a pena a leitura.

7) A grande arte (1983) - Rubem Fonseca

   O mundo fonsequiano é maravilhosamente degradado. Sexualmente, politicamente, eticamente, socialmente, tudo isso degradado, a partir, obviamente, da nossa visão de mundo. A grande arte tem como protagonista o advogado criminalista Mandrake, mais detetive (sempre fracassando) que advogado, na realidade. Esse encantador canalha é quem nos guia nas várias tramas de um romance que retrata uma sociedade única, na qual nos simpatizamos por assassinos, por amorais, por cínicos. Não se alarme, dentro do universo de Rubem Fonseca isso é altamente normal; ele é um grande construtor de personagens bizarros que nos atraem pelas suas justificativas, seus traços de humanidade.
   A grande arte pode fazer referência ao manejo preciso de armas brancas. Ela é, também, no entanto, a grande arte de escrever e criar; o trabalho do ficcionista que nesse romance é genial, sem nenhum medo de usar esse vocábulo.
   Não há necessidade de comentar o enredo desta obra-prima, ele fala por si só no exato momento que começamos sua leitura. Leitura, aliás, que flui com facilidade, com diálogos bem construídos, ora cômicos, ora extravagantes, ora supérfluos. Subliteratura nada! A grande arte é a prova de como o romance policial, bem construído, pode ir muito além do entretenimento.
Do mesmo autor: Fonseca é mais conhecido pelos seus contos; de qualquer modo, os romances O caso Morel e, principalmente, Agosto confirmam em qual arte este autor é gênio: ficcionalizar.

6) O perfume (1985) - Patrick Süskind

   Acredito que essa seja uma história minimamente conhecida, já que o livro foi transposto para o cinema em 2006. A narrativa se passa no século 18 na França e apresenta uma atmosfera deteriorada, sufocante, fétida, cheirando a urina, merda, madeira podre, enxofre etc. Num parto extremamente bizarro, como se fosse cuspido, Grenouille nasce, uma figura que não enternece a ninguém, pelo contrário, enoja a todos sem uma razão plausível, aparentemente. Ele não transmite nenhum odor, no entanto é capaz de capitá-lo com agudez sobrenatural. São essas duas características, em termos gerais, que dão vida à narrativa.
   Grenouille tornou-se logo um mestre na arte de fazer perfumes e encontrava, de modo contido, grande prazer nessa atividade. Entretanto, seu maior prazer era preservar a fragrância de jovens virgens. É na jornada pela captura do melhor odor possível que o protagonista mata, pois é a única maneira de prendê-lo em sua forma mais original possível.
    Süskind constrói a história de um sentido levado ao extremo, ao prazer, ao assassinato. Grenouille é escravo de seu olfato, como algumas vezes somos de qualquer outro sentido; ele o controla, deixando-o sem livre arbítrio, ele deve capturar essas essências, não há outra saída.
   O perfume descreve de forma fenomenal a jornada de um estranho, um serial-killer que não odíamos, pois retrata um egoísmo puramente humano na busca do maior poder possível.
Do mesmo autor: Caso não esteja enganado, O perfume é o único romance do alemão Patrick Süskind, no mais ele escreveu novelas e uma peça de teatro. Caso tenham algo a me indicar dele, por favor o façam, já que esse romance é a única leitura que tenho desse escritor, pelo menos nessa obra, genial.

(A segunda parte do post estará por aqui até o dia 6 de Janeiro, no máximo. Abraços)

sábado, 15 de setembro de 2012

À necessidade


Ainda não era tarde o suficiente para eu fazer o que iria naquela noite, mas o fiz, com motivos o suficiente para não me arrepender. Falam tanto sobre a necessidade de descarregar sua respectiva energia extra, pressupondo-se que a tenha, que eu caí nessa; precisava daquilo; porém, infelizmente não puder ir à academia naquele dia. Vigor em excesso não havia, mas em casos como esse se encontra o que é indispensável para que se satisfaça certo desejo.
O ônibus passou relativamente atrasado. Pelo horário da companhia, que não quer dizer lá muita coisa, estava doze minutos, quase treze, atrasado; o que, de certa maneira, acabou por me deixar um pouco menos calmo.
Estava dentro daquele móvel desajeitado, procurando um assento. Achei-o atrás de uma gorda que o escondia quase por inteiro. Digo, o ônibus não estava lotado, havia um ou outro lugar para se sentar, de qualquer modo, o espaço que ela ocupava ali era absurdo. Ela sentava em bancos duplos, teoricamente para duas pessoas, no qual, no caso aqui relatado servia para ela, mais sua pequenina bolsa. Aquele exagero de mulher ainda fazia questão de sentar-se no primeiro banco, obstruindo a passagem para alguém que fosse corajoso o suficiente para tentar arranjar-se ao lado daquela enormidade. Além de tudo isso, que até hoje me enoja, ela estava vestindo óculos escuros enquanto que o sol já tinha desistido há mais de meia-hora.
Andava numa cadência agonizante aquele veículo. E aquilo na minha frente. Eu pensara em mudar de lugar, mas já era tarde demais, os bancos todos já haviam sido tomados e ainda haviam passageiros em pé. Uma bolsa, entretanto, estava sentadinha. Ousam colocar em questão minhas justificativas, que besteira!
Em um ponto do caminho, ela abriu um saco no qual deveriam conter uns três pães de queijo. Devorava aquilo. O asco me possuía cada vez mais e eu lembrava que não tinha ido à academia naquele dia. Pensei que se ela descesse num ponto sozinha, eu iria segui-la, iria estudar o local, iria,ahhh, iria!
Ela desceu sozinha, todo aquele complexo gorduroso, caindo de um lado para o outro numa preguiça que me avassalava. Decidi segui-la. Ela morava numa casa grande demais, que estava escura, aparentemente INABITADA naquele momento. Ahh, sentia meu braço fraco, maldita falta da academia, preciso me exercitar sempre.
Eu não tinha um plano, não sabia como agir. Não havia roupas extras, nada. Porém, a escolha já fora tomada.
Ela entrou, por um descuido não trancou imediatamente o portão, estava em casa, não havia perigo. Esperei uns minutos e o abri. Fez um barulho escandaloso, porém nada se manifestou. Porta também destrancada, música vindo de um cômodo. Na cozinha recheada de guloseimas achei um martelo de madeira, outro de aço. Peguei o segundo, chequei-o: parecia confiável.
Não poderia acender nenhuma luz, mas fotos ali existiam, na sala, ela sempre voluptuosa, pelo menos era o modo como eu queria enxergá-la.
Distingui de onde aquela música vinha: do banheiro, escutava-se o característico barulho de um chuveiro por trás daquela cantoria gorda.
Aberta, escancarada estava aquela porta do banheiro. Escondia-se um corpo enorme dentro daquele box. Não notou minha presença. Bati a porta do banheiro. Ela, com aquele corpão, foi corajosamente ver o que estava acontecendo. Assim que a cabecinha dela colocou-se para fora daquele cômodo, o martelo mecanicamente a acertou na parte de trás de sua cabeça. Não queria matá-la ainda, mas aquele objeto o fez. Daquele tamanho e tão fraca. Queria acertá-la diversas vezes, fazer meu exercício. Mas não, nem para isso aquele peso para o mundo me ajudou.
Nem pensei em limpar a poça de sangue dali. Eu estava transtornado, decidi ir a pé para a minha casa, mesmo com manchas em minha camiseta negra. Ninguém sequer reparou.
Abri a porta de casa, meu gato me saudou na sua maneira discreta. Guardei o martelo em minha cozinha. Depois iria me livrar daquilo.
Coloquei uma roupa apropriada e fui correr um pouco. Eu precisava do meu exercício!

domingo, 26 de agosto de 2012

Ao não.



         
            Fiquei estirado naquele chão azul fitando a desistência do sol. Ele vai desaparecendo aos poucos, levando consigo a sua claridade, aquela luz forte vai se enfraquecendo, tornando-se avermelhada, alaranjada. Algumas nuvens espessas brancas com leves contornos em cinza liberam a fragrância da satisfação.
           - Para que fazer sentido? Meu amigo pergunta perturbado.
           Respondo friamente balançando a cabeça negativamente - não sei - num movimento preguiçoso. O que realmente não fazia sentido era a efemeridade daquela situação. Não apenas a amalgamação das cores trazia uma sensação de vivacidade, mas também aquele contexto. O êxtase em forma de calmaria, brando, apesar do céu enegrecer raivoso com o passar dos segundos.
          É a linda sinfonia do silêncio que nenhuma tecnologia consegue reconstruir. É a inefável vida transformada numa morte delicada, o corpo transcendendo, indo além, chegando ao céu já completamente obscuro.
           - Para quê fazer sentido? Meu amigo não estava mais ali, aquele era agora o eco de uma voz sombria, carregada de ódio. Ela repetia incessantemente essa sentença. Eu gostaria de me libertar, ilusoriamente...que fosse.
             Abro os olhos absorto num entorpecimento cruel, macilento, nojento. Não faço sentido, desfaço um céu, desfaço um chão azul, esvaneço para o inferno. Toco o seu rosto, não faz sentido, que reciprocidade é essa?
             Não faço sentido, seria um absurdo fazê-lo. Vago, apenas vago pelos seus sentimentos imprecisos. Não enegreça, não ouse se materializar, preciso do ideal; do que não pode ser tocado, do que não se putrefaça.
            
          

domingo, 27 de maio de 2012

À Celebração


Pensando mais friamente, depois do ocorrido, reflito que talvez nunca tenha me apaixonado realmente. A razão sempre residiu em mim, obstruindo toques de loucura que poderiam ser benéficos. De todo modo, eu entendo aquele que é insano e age dessa maneira, encontrando justificativas plausíveis para tanto. Elas têm que fazer sentido dentro do próprio ser, e isso não é negado. Entretanto, quando a ação se exterioriza, as conseqüências podem se tornar fatais, num processo de destruição não apenas de si mesmo, mas também do objeto venerado.
Eu concordei em ser o cúmplice de tão belo ato romântico. Era uma quarta-feira, ou quinta, não me lembro muito bem. O amanhecer veio com tanta força que até o próprio sol chorou, deixando-nos na semiescuridão de uma tarde chuvosa.
Permaneci sentado do outro lado da rua, num ponto de ônibus, de frente ao lugar onde a celebração de sentimento tão nobre iria ser posta em prática. Minha visão estava um tanto quanto turva por conta da nebulosidade, mas ainda sim eu conseguia sentir, ao longe, quase não vendo, aquela declaração.
Meu amigo parecia nervoso, talvez estivesse hesitando, tremia um pouco, ou eu queria que ele parecesse daquela maneira, não sei ao certo. Não havia quase ninguém nos arredores, apenas carros passando numa velocidade em que nada os chamaria a atenção.
Ele finalmente adentrou o lugar, não havia filas, eram três atendentes para um consumidor, ele. No entanto, meu amigo reservava sua visão para apenas uma delas, a sua grande paixão, a sua musa, que conversava animadamente com suas colegas, no ócio do trabalho. Quando ela o viu, percebeu-se certo horror em sua fisionomia, que foi se diluindo até se chegar a uma sensação de serenidade, ainda não completa, porém.
Pareceu-me que ela foi ao encontro dele, sendo que este remexia seu bolso, carregando ali o presente do amor incondicional. Conforme a loja estava fazia, ambos – importante frisar – beijaram-se, encontrando-se os corpos, sem um abraço completo, pois a mão dele permanecia estancada naquele buraco de suas vestes. Eu pouco podia ver ou, por mais estranho que pareça, sentir, também, uma das mãos da futura desposada. Notei, apenas, uma dor descomunal no abdômen dele, que poucos milésimos de segundos antes havia deferido seu carinho. Os dois, separando os lábios vagarosamente, foram-se ao chão, com os corpos ainda juntos caíram na amalgamação de suas respectivas poças escarlates. Ali, o único fato que sei perfeitamente, é que se casaram na morte.
Os objetos que levaram aquela união, assim como os cadáveres, jaziam inanimados no chão, sem saberem o que tinham conquistado. A eternidade, foi isso que aquelas duas facas, parecidíssimas, haviam ajudado a celebrar.
Apaixonar-me deliberadamente? Sim, flerto com a morte.