domingo, 21 de julho de 2013

À dependência.


          Acredito que muitas pessoas se apeguem a alguns rituais, antecedendo atos, para que esses saiam da maneira esperada. Alguns jogadores de futebol pisam primeiro com a perna direita no gramado e depois fazem o sinal da cruz, devotos que são. Um amigo meu até hoje tem uma maneira específica de focar sua respiração antes de provas importantes. Outro tinha que arrumar o cabelo de uma certa exata maneira antes de ir a festas, caso não o fizesse, não iria conhecer ninguém de interessante; isso mudou quando uma confraternização foi feita na sua própria casa e preparada sem o consentimento dele. O que aconteceu é que ele chegou de uma viagem de cinco horas com a festa já rolando, descabelado, cansado, sedento por sua cama. Porém, obrigado a participar daquele encontro, ficou por lá, até conhecer uma linda garota com quem ele namorou por três felizes anos. De certa maneira, essa lição nada vale, já que atualmente ele mal possui cabelo, mas, o que quero dizer, é que podemos nos desapegar daquela mania, daquele rito; substituindo-o, esquecendo-o através do tempo ou até mesmo forçosamente; temos o poder inconsciente, à despeito do que foi dito a pouco, de reforçar tal rito, criando outros a partir de um, tornando-se obsessivo, não sabendo como lidar com tarefas simples sem aquilo. O desapego não é simples, acontecendo ou não; no meu caso, não cabe a mim analisar.
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Estávamos, Marcela e eu, no nosso terceiro ano de relacionamento quando decidimos morarmos juntos. Ambos cursando faculdade e trabalhando, conseguimos alugar um apartamento simpático que nos facilitou a vida por certo tempo. Construímos nossa própria rotina, acordávamos no mesmo horário, tomávamos o café-da-manhã apressadamente, íamos trabalhar. Depois nos encontrávamos para o almoço. Quando tínhamos dinheiro o suficiente, comíamos em restaurantes de certo prestígio, quando não, improvisávamos na cozinha.
Não havia muitos dramas, claro que brigas aconteciam, mas íamos nos ajustando, fazendo daquela casa e de nós um ser uno, ou pelo menos dependente da presença do outro. À noite caminhávamos conjuntamente à faculdade. Cansados, assistíamos a alguma aulas enfadonhas, outras boas, algumas tão insuportáveis que tínhamos que dar várias voltas pelo campus. Sempre juntos, doentiamente juntos.
Antes de dormir é que algo floresceu em mim, algo bastante íntimo, pelo menos para aquele que era observado. Eu não conseguia dormir sem observá-la, calmamente, diminuir a sua respiração e progressivamente cair num sono que se tornava profundo. Após esse exercício de relaxamento, sim, que eu conseguia descansar.
No começo daquele tempo juntos esse ato era lindo, ela gostava de ser observada e se sentir protegida, me dizia. Eu ia consolidando cada vez mais aquele ritual. Após um tempo, ela nem ligava mais para tal coisa, eu me sentia mal quando nossas rotinas não batiam e eu não conseguia vê-la adormecer. Eu tinha que tomar ansiolíticos e do mesmo modo o meu sono era agitado, intranquilo. Eu estava completamente viciado naquele ritual e, por conseguinte, nela. Eu tinha que tê-la.
           Um dia terminamos o relacionamento. Não vou relatar tudo o que levou ao rompimento, é apenas isso o que se precisa saber: eu não a tinha mais.
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Estava totalmente atordoado. Passava praticamente o dia assim; via-me mais morto que vivo, fitando sem propósito coisas que se postavam a minha frente. Para quem me olhava, parecia que eu refletia sobre algo, mas não, não havia reflexão alguma, o que era para ser pensado já estava saturado: os motivos para o meu entorpecimento eram claros e óbvios. O que havia eu de fazer?
As noites na faculdade se faziam e desapareciam num entorpecimento que tendia ao irreal. Uma hora estava lá, completamente sozinho pois minhas amizades foram desaparecendo com a minha derrocada, assistindo-a interagir facilmente com outras pessoas, criando laços para mim impossíveis. Na eternidade de alguns segundo eu já estava novamente solitário em casa, tentando inutilmente me concentrar em alguma leitura.
           Quem já dessa maneira sofreu e tenha talvez uma mente um tanto quanto perturbada por questões que não prestam sabe: sair da prostração em que se encontra não é um mero querer; longe disso, é uma luta constante e hipócrita de você consigo mesmo, dizendo-se: “Você vai sair dessa!”. Provavelmente é uma grande mentira, porém são essas palavras que te mantém vivo.
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Cedi à vida, pelo menos tentei; as pessoas enxergavam em mim um ser mais carismático. Recorri à ajuda de alopatias, homeopatias, psicanálise, psicologia, psiquiatria, xamanismo, yoga, pilates, animais de estimação, livros de auto-ajuda (queimados posteriormente), empréstimos de dinheiro – como pagar por tudo isso? -, mas, por fim, a melhora se deu por um dos aspectos citados e outro, que me arrebatou.
Dana, minha gata, foi de grande serventia; sua apatia para com o mundo me remediava; seu carinho com propósitos também; a sua discrição trazia todo um charme àquele felino. Me apeguei a ela. Quando sumia, dando vazão a seus instintos selvagens, eu me preocupava, mas logo ela voltava, às vezes com um presente: algo que matara e trouxera cuidadosamente. O que me arrebatou, bem, isso já era de se esperar, iria ocorrer mesmo que a sua vontade, conscientemente, seja de permanecer isolado, o convívio social é impossível de se desvencilhar.
            Vai-se ao trabalho, encontra-se na faculdade, vê-se, sem motivos aparentes, num bar ao redor de um daqueles locais. Apega-se aquele bar, a cerveja, para acalmar e ajudar no sono, torna-se uma rotina atraente. Sentei-me sempre ao fundo daquele local, num lugar escuro, mesa quinze: - Uma Original, por favor, eu pedia friamente ao garçom. Eu bebia, de maneira calma e caminhava mais sereno, acompanhado pela música em meus fones de ouvido, em direção à minha casa, onde me deparava com Dana e a minha vontade de desvanecer placidamente. O sono, porém, ainda era agitado.
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Numa noite de quinta-feira, no mesmo bar de sempre – ele se encontra no meio caminho entre o meu apartamento e a faculdade, eu fiz o pedido usual, natural, rotineiro: - Uma Original, por favor. Atendido prontamente pelo garçom, que provavelmente deve ter alguma ideia sobre o ser bizarro que aparece quase todos os dias no mesmo horário, pede a mesma coisa, e está sempre solitário, comecei a degustar aquela cerveja, deliciosamente gelada.
Havia sido um dia cansativo, por conta disso eu tinha aquele aspecto de refletir sobre algo, olhando para um ponto fixo, sem que nada de palpável perpassasse a minha mente. Durante essa (não) divagação, eu encontrei meu ponto fixo numa certa garota, sem ao menos perceber isso e também, por conseguinte, que eu poderia ser visto como um maníaco. Nada disso ocorreu; algo curioso, felizmente, incidiu. Ela chegou-se até a minha mesa, o que apenas percebi quando seus passos firmes me tiraram do meu estado torpe. Eu não estava acostumado com aquilo, ela puxou uma cadeira e perguntou se poderia sentar-se, eu apenas balancei a cabeça timidamente, insinuando que sim, que ela poderia fazer aquilo.
A conversa, no começo, não foi das mais fluidas. Eu respondia algumas perguntas com monossílabos, suspeitando aquela abordagem. A garota era resistente, continuava e eu, gradativamente, fui dando conta de seu esforço e resolvi retribui-lo fazendo, também, questões. A empatia foi se tornando maior, fui saindo da minha rotina, quando percebi estávamos na nossa sexta cerveja e já era uma e meia da manhã. O bar estava fechando. Tarde que era, resolvi acompanhá-la até a sua casa, que se demonstrou ser mais longe do que aparentava; em todo caso, eu estava bem disposto, tanto pela conversa quanto pelo efeito do álcool em meu corpo.
Chegando a frente de sua casa ela disse que gostaria de confessar algo. Mais precisamente, ela me contou que observava como Marcela e eu éramos apaixonados, como nossa relação era demasiada bela etc etc. Me disse, também, que acompanhou a minha derrocada. Ela, de nome Vivian, me observava, e eu, na nebulosidade da minha depressão nunca me dei conta. Ela estudava na mesma faculdade que eu, frequentava o mesmo curso, porém um ano mais nova, e eu nunca, nunca me dei conta daqueles admiráveis cabelos negros e longos, daqueles olhos vívidos que perscrutam o que enxergam, daquele rosto simétrico marcado por pequenas pintas que apareciam e desapareciam de acordo com a luz. Estava com raiva de mim mesmo, porém aliviado, naquele instante. O certo é que, superficialmente, ela me conhecia, já eu não, não a conhecia, mas, com o tempo, isso aconteceu.
           Naquela noite nos beijamos timidamente. Nada mais que isso sucedeu. Naquela noite.
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Fui retomando minha energia e disposição à medida que o relacionamento evoluía. Ela mudou-se para o meu apartamento no sétimo mês de namoro. Fomos dialogando e conseguimos achar uma rotina confortável para ambos. O mais importante: eu poderia vê-la dormir, assim como acontecia com Marcela. Vivian dormia ainda mais rapidamente, era impressionante, mas tive êxito em me adequar àquilo.
          O que me preocupa é a nossa codependência. Para viver alegre eu, sozinho, sou um fracasso. O ritual da minha felicidade é estritamente ligado ao dela. Medida paliativa ou não, encontro-me, no momento, bem. 

quinta-feira, 30 de maio de 2013

À segunda necessidade

primeiro conto sobre o personagem: http://aolugaralgum.blogspot.com.br/2012/09/a-necessidade.html

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Creio que não há duvidas que na minha última empreitada eu tenha sido um tanto quanto displicente em relação ao modo como agi e também no que tange ao (não) cuidado em fazer desaparecer marcas que me entregariam às, digamos, autoridades. Por sorte, a (falta) de inteligência policial e o total esquecimento familiar do ser voluptuoso que tirei a vazia e inoportuna vida, ajudaram para que o caso caísse no esquecimento; não no meu, porém. Ainda lembro-me daquela frustrante noite na qual a enormidade daquele monstro não conseguiu nem me satisfazer fisicamente no ato de matá-la; com rapidez perturbadora aquilo faleceu.
O caso agora é outro; não serei mais tão desleixado, até por que a próxima vítima é bastante conhecida nos ares da vida acadêmica da cidade. Não quero levantar suspeitas, já que a morte não me parece tão ruim quanto à vida numa prisão ainda mais fechada que essa existência.
Quando o aniquilamento é especial, desfruta-se ainda mais dele; usa-se armas mais brandas para que a incomoda não-morte do sujeito se esvaia aos poucos, num sofrimento delicioso. Espero que esse seja mais violento.
Em termos físicos está acima do peso, como qualquer pessoa que me provoca asco, porém, não é essa a sua característica que mais me enoja; aliás, essa é a menor. O seu pseudo-intelectualismo, suas formas diversas de tratar pessoas de acordo com o que elas podem o servir, sua pedofilia não declarada mas exposta, seus trejeitos, sua tentativa de um linguajar erudito quando quer atenção, suas referências absurdas, seu deliberado modo de chupar as bolas de seus superiores. É um sujeito desprezível que vem dando certo, pelo menos o próprio o vê dessa forma. Não deveria. Não pode ser que apenas eu enxergue com tanto desgosto essa tentativa de ser essas várias máscaras que o transformam não em muitos, mas em nenhum. Poderia deixá-lo se perder dentro de si, na amalgamação de suas personalidades que, quando vistas de modo mais aprofundado, se contradizem, levando quem as está analisando próximo a um estado febril, gerando absoluta cólera. O plano é claro: matá-lo com o intuito egoísta de nunca mais sentir sua presença.
Quando a vontade é devastadora, cria-se tempo e oportunidades. Nesse evento é exatamente isso que ocorreu; entre uma ou outra falta no trabalho por motivos diversos, estudei os passos daquele sujeito; conto, agora, que não com tanto atento quanto normalmente seria exigido, talvez seja esse o grande empecilho para o que (não) veio a acontecer.
Descobri onde ele morava, que horas comia, estudava, não lia o que falava ler, não assistia o que fingia dominar, enfim, era ele, a sua personalidade menos volátil. Deparei-me com uma vida extremamente solitária. Usava meios de comunicação apenas para tentar seduzir garotas e meninas. Em uma das minhas observações o vi entrando com uma fêmea que aparentava ter, no máximo, quinze anos de idade. Quinze minutos passaram-se e ela foi embora, não de carona com ele, muito menos de táxi, ele não fez nem a gentileza de levá-la ao ponto de ônibus mais próximo. Ela foi a pé, num certo momento nos cruzamos, ela me parou, parecia aturdida e me perguntou onde poderia pegar alguma locomoção, morava longe. Fui gentil, dei-lhe uma carona. No caminho percebi que ela falava descontroladamente, num fluxo de pensamentos de difícil entendimento; devia estar sob o efeito de alguma droga. Perdemo-nos muitas vezes por conta de sua incapacidade de se focar em apenas um objetivo: chegar, finalmente, na casa onde residia. Fatalmente encostei o carro na frente de sua moradia. Ela tentou me agradecer com carícias; enojado por ela ter encostado no outro e, também, pela sua pouca idade que não se adequava àquele apetite sexual, tirei-lhe rapidamente as mãos, disse que nada daquilo era necessário. Ela saiu sem entender o que havia ocorrido. Nesse ato bondoso perdi horas de estudo. Um completo fracasso, ela chegaria a sua casa de qualquer modo, mais ou menos traumatizada, pois violentada ela já havia sido.

Já não me recordo precisamente dos acontecimentos; algumas vezes eles parecem alucinações vívidas de uma alma reprimida, noutras nada houve, estariam para ocorrer, ainda existem aqueles em que tudo se deu por completo. Opto por narrar a terceira sensação, aquela de meu gosto; o êxito não é garantido.

Decidi finalmente colocar meu plano em ação. Ele iria a uma festa caçar garotinhas e voltaria para seu prostíbulo ébrio, tornando-se uma presa mais fácil. No momento da tortura, porém, esperaria certo tempo para que ele se refizesse. É de vital importância que ele sinta agudas dores em diversas partes de seu corpo gordurento e seboso. O único entrave seria caso ele conseguisse voltar acompanhado, o que já vimos que uma vez acontecera. No entanto, quando ele consegue persuadir ardilosamente uma vítima, demora-se mais na confraternização, quando não, volta cabisbaixo, resmungando impropérios. Resolvi esperar até certa hora da madrugada, então, em lugares pouco chamativos; às vezes, quando alguém aparecia, eu fingia estar conversando com alguma pessoa no telefone, pedindo uma carona ou algo do tipo.
        Ao longe o avistei, parecia atordoado e estava claramente bêbado. Sem ninguém na casa ele adentrou. Vesti-me, já muito próximo da casa, com uma máscara. Ele trancou a única porta de entrada do local. Eu me locomovia com dois celulares, em um coloquei o toque que a potencial vítima usava. Coloquei-o próximo a porta, com o meu outro aparelho fiz a ligação. Ele, pensando que deixara o seu próprio telefone cair, numa demonstração de imenso carinho que comumente as pessoas possuem para com esse aparelho, foi rapidamente buscá-lo. Ele abriu a porta, quando se abaixou para agarrar o que jazia no chão, acertei-o com o joelho no rosto. O que não esperava era o que houve depois do golpe. Fui agarrado por trás por alguém que não consegui identificar a priori, no entanto fui apto para me desvencilhar daquele sujeito, sem hesitação o derrubei no chão e o feri com várias facadas por todo o corpo, de maneira febril e passional. Quando dei por mim, ouvi o que, teoricamente, seria morto ligando para a polícia. Ágil, abortei a missão, recolhi-me para casa.

        Meu gato saudou-me. Intuindo que algo estava errado veio ao meu colo quando sentei no sofá. Ronronou sons de sabedoria que humanos, como eu, não compreendem. Coloquei-o de lado. Com a roupa e a faca molhadas de sangue, desisti embaixo do chuveiro. Ali permaneci, nublado pela água morna que caía ininterruptamente.
 

domingo, 10 de março de 2013

Às variações



No mesmo momento que o relógio apontava a metade das dez horas da manhã ele acordou. Chegara às duas e meia de uma festa, bebeu o suficiente para atestar uma leve dor de cabeça; decidiu permanecer deitado, mesmo sabendo que não conseguiria voltar a dormir. Aos poucos foi relembrando alguns fatos da madrugada, tão próxima, mas já passada; dessa forma, respostas dos motivos para o despertar tão insosso, monótono que culminavam na vontade de ficar prostrado na cama, pensando, debatendo consigo mesmo, vinham à tona. Em todos os diálogos dele com ele próprio uma frase se repetia: “Você é um bosta!”


Àquela festa foram ele, o protagonista do fracasso, dois amigos, ambos altamente entusiastas e uma amiga, que ali só estava para encontrar um carinha que tinha conhecido em outro contexto de socialização forçada. Obviamente, além dos já citados, havia cerca de mais quinhentas pessoas no lugar; não cabe ao narrador enumerar precisamente, isso nem é relevante para a história, também. Dentro desse aglomerado, uma certa mulher chamou a atenção do nosso protagonista, como normalmente ocorre, não é uma pessoa tão crítica assim - até o ponto de se autosabotar - e a atmosfera ajudava a achar quase qualquer coisa apelativa atraente. Entram em cena os dois amigos, a amiga já havia encontrado aquele sujeito que citei; ela encontra-se desaparecida até o presente da narrativa.
“Está de olho em alguém, Protagonista (não vou inventar nomes)?” perguntou um dos amigos que poderiam muito bem ser a mesma pessoa; pronto, agora o são.
“ Aquela garota encostada no muro da esquerda...você conhece?”
“Não, mas podemos conhecer. Vamos lá, cara. Te apresento, conversamos com ela, com as amigas dela; vamos socializar, estamos aqui, pô!”
“ Desencana, para que eu vou lá? Provavelmente serei ignorado e você se dará bem, como acontece normalmente.”
“Pára com isso! e se me dou bem, é por que passo essa positividade, essa segurança.”
“Passa sim, cara. É disso que elas gostam, de caras que não tem vergonha alguma em assumir onde estão e por que estão em algum lugar.” o protagonista não foi sequer ouvido, provavelmente.
“Pare de falar bobagens! Ela está olhando para você também, cara.”
“Está vendo em quem ela vai jogar spray de pimenta hoje, eu pareço um bom alvo.”
“Desisto, cara! Estou indo lá falar com ela; fique aí!”
O nosso herói, obviamente, não permaneceu ali: primeiro foi ao banheiro, depois pegou mais uma cerveja e, para se livrar de qualquer constrangimento, fugiu para a sua casa às duas e quinze da manhã, praticamente na metade da confraternização. Chegou em seu domicílio, um apartamento de dois cômodos, alugado, onde morava com o seu gato, deitou na cama e depois de dez minutos já estava num lugar muito mais divertido daquele onde se encontrara anteriormente: nos seus sonhos, menos bizarros que a realidade.


O protagonista agora, ainda deitado em seu leito, pensava em como agira naquela madrugada. No momento tenta reconstruir a história em sua mente se, sem a ajuda de nenhum amigo entusiasta, tivesse, de fato, ido conversar com aquela garota.
Imaginou-se a aproximação, diria seu nome, faria perguntas triviais, ela diria que teria que acompanhar as suas amigas até o camarote, sendo que não existia nenhum.
Em outra variação, viu-se tendo uma conversa animada com ela sobre desenhos animados que os dois viram quando crianças. Depois, não sabendo mais o que falar, ela iria com as amigas até o camarote inexistente.
Outra variante: Ela assumiu que realmente tinha olhado para ele, assim como prestaria atenção em qualquer pessoa com um aspecto físico repugnante daqueles que poderia forçar alguma situação, sendo ela obrigada a usar o já citado spray de pimenta. Dali ela iria, supostamente, para o camarote.
Mais uma: Na realidade uma amiga daquela garota estava de olho no nosso herói, porém, essa pessoa estava um pouco acima do peso (então era ligeiramente crítico), não atraindo o protagonista que também é um babaca. Vendo aquela situação, todas as amigas decidiram inventar a desculpa do camarote.


Na imaginação do nosso protagonista, a bola de três que ele arremessaria iria girar no aro e não entrar; se fosse futebol, iria driblar três marcadores, mais o goleiro e mandar para fora de maneira vergonhosa; na faculdade de medicina iria desistir no último semestre por falta de motivação...iria sempre falhar em algum aspecto.
O que mais o deprimia era o fato de não conseguir ser bem sucedido nem nas suas divagações. Ele estava totalmente desencantado e falhava ao lidar com potenciais encantos. Fatalmente (para ele), levantou da cama, descongelou algo e comeu sem vontade alguma. Depois não sei mais o que ocorreu, desisti de acompanhar mais um fracasso, não só o dele.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

À criação



‘Sinceramente, não sei por que você faz citações não tendo essa habilidade. Primeiro, duvido bastante que Hemingway tenha falado tal coisa; segundo: caso você tenha tirado isso de uma criação artística dele, não foi o autor em si que disse, mas, sim, seu persona...’
‘Que bobagem! E através de quem o personagem fala senão pelo autor?’
‘Você está minimizando o trabalho de criação do escritor afirmando isso. Ele só pode, então, emitir os seus próprios pontos de vista, estando incapacitado, portanto, de criar inúmeras facetas através de suas personagens?’
‘Você sabe muito bem que o Hemingway era assim!’
‘Então ele não criou nada?’
‘Criou através dele mesmo.’
‘A partir disso você pode acusar qualquer escritor de qualquer coisa. Antissemitismo, homofobia, incitação à violência etc.’
‘O correto é deixá-los falarem qualquer merda?’
‘Todo mundo pode falar qualquer coisa! Somos teoricamente livres para nos expressarmos!’ – “nesse ponto eu já estava gritando, bufando de raiva.”
‘Você sabe que não é assim que funciona, meu bem’ – “odeio essas palavras carinhosas sarcásticas.”
‘Eu sei, ditadora!’
“Suspeito que nesse momento o clima para algum ato amoroso tenha se dissipado. Não havia mais vestígios dele, por mais que se procurasse. O que acontece é que não agüentava mais ter essas discussões. Ouviu o diálogo, não? é muito desgastante.”
“Você tem certeza que foi dessa maneira que o diálogo ocorreu?”
“Claro que não. É difícil lembrar exatamente uma conversa.” – eu tinha que admitir isso. No entanto, uma que foi criada e memorizada, nem tanto.
“Há uma possibilidade de você ter preenchido algumas lacunas com a sua imaginação, então?”
“Onde você quer chegar?”
“Olhe, não quero te chatear, mas existe a possibilidade dessa conversa não ter ocorrido dessa maneira, você concorda?”
“Eu já concordei, mas que diabos!”
“Mantenha a calma.”
“Estou calmo, ó mestre da psicologia.”
“Sarcasmo não demonstra um estado de tranqüilidade.”
“Pode demonstrar.”
“Não nesse momento.”
“Ok, doutora. Não sei por que você está tentando me jogar contra mim mesmo.”
“Não estou fazendo isso. Estou tentando apenas trabalhar em algumas falhas comportamentais que podem estar afetando o seu julgamento.”
“Muito bem. Porém...ela nunca leu Hemingway!
“Você não pode ter certeza disso.”
“Não, mas nem é esse o ponto. Até você está deturpando a nossa própria conversa. O diálogo com ela foi mais ou menos daquele jeito. Ah, já sei! Qual foi a versão dela?”
“Tenho que manter o sigilo entre mim e o paciente.”
“Você diz: o sigilo entre você e a minha namorada?”
“Sim.”
“Mas se você está me analisando através do discurso dela também, esse sigilo foi rompido. Ela está na sua mente.”
“Estou trabalhando com o discurso de ambos.”
“E depois vai dizer qual foi o mais plausível?” – eu estava me deliciando.
“Não é meu trabalho fazer isso."
“Desisto, podemos passar para a bobagem de como aquela discussão me afetou e blá,bl..”
“Infelizmente o nosso tempo acabou.”
Atravessando a rua do consultório, deparei-me com ela chegando para a sua hora de confissões. Fui ao seu encontro e perguntei: “De quem foi a idéia de fazer uma terapia de casal separadamente e com a mesma psicóloga?”
“Foi sua. Dizia que se fizéssemos conjuntamente iríamos brigar entre si e perguntar para a psicóloga quem tinha razão.”
“Pois é. Isso vem acontecendo, de qualquer modo, ainda que indiretamente.”
“Usou a sua versão do diálogo sobre o Hemingway?”
“O diálogo não era sobre ele em si, e sim a capacidade criadora...enfim.”
“Esqueça esse assunto. Depois te digo como foi a minha consulta. Após ela, iremos elaborar o que você dirá na semana que vem. Faremos conjuntamente, escutou?!”
“Será que ela ainda não percebeu nada?”
“Espero que não, isso está tão divertido! Nossos personagens estão evoluindo. Tenho que ir; nos vemos em casa.”
Despedimo-nos friamente. Manter o disfarce é importante.
Como será que a psicóloga irá nos classificar quando descobrir o que realmente ocorre? Mentirosos patológicos ou apenas criadores na vida vivida?

domingo, 6 de janeiro de 2013

À lista (segunda parte)

5) O falecido Mattia Pascal (1904) - Luigi Pirandello



   As peças de Pirandello são, normalmente, mais poderosas e demonstram melhor as ideias do autor, porém O falecido Mattia Pascal figura entre suas principais obras. Aquela que, entre os romances desse italiano, expõe de maneira mais agradável os seus preceitos. A agradabilidade funciona, obviamente, como força que nos atrai para a leitura. Pirandello não foi apenas um teórico do humorismo, mas colocou isso em prática em todas suas obras que li até agora, algumas vezes com mais precisão, outras com menos. No caso do romance aqui tratado, ele foi extremamente feliz não só no que tange ao humor, mas também, à tragédia escondida por trás dele.
   Mattia Pascal, protagonista do romance, vive uma vida medíocre e aproveitando-se de uma situação, decide fingir sua morte para assim ter a liberdade que tanto gostaria. Cria uma história, um novo nome, uma nova vida; ficcionaliza dentro da ficção. Obviamente ele irá esbarrar nas leis, nas perguntas sobre seu passado, o que ele é? Mattia ou Adriano Meis - sua nova identidade. Acaba não sendo nenhum dos dois em sua plenitude.
   Como já disse, ler sobre esse romance pode ser chato (pois é!), então sugiro a leitura dele, muito mais agradável, cômica e que levanta importantes questões sobre a unidade do ser, suas máscaras e a inevitável busca de uma liberdade plena e utópica. Uma obra-prima de Pirandello, sem dúvidas.
Do mesmo autor: Um, nenhum e cem mil é, para mim, muito mais teoria do que romance; Pirandello, através de uma personagem, coloca a prova seus ideais de que o ser uno não existe. Apesar desse aspecto teórico e até com certa didática, é uma leitura aprazível.

4) A trégua (1960) - Mario Benedetti



   Escrito em forma de diário, A trégua, do autor uruguaio Mario Benedetti, retrata, primeiramente, a vida opaca de um viúvo cinquentenário rumo à sua aposentadoria. Até aqui a obra não parece ser muito atraente, não? Porém, com toda a certeza, é. Os anseios, arrependimentos, as desilusões, a turbulenta relação com os filhos, vão se revelando com o decorrer dessa narrativa brilhante. Estamos diante daquilo que é o mais particular de um indivíduo, aquilo que, supostamente, não era para ser lido, mas o é: um diário. A força do romance também está nesse aspecto.Martín Salomé escrevi de si para si, não pensando em julgamentos posteriores de outrem; dessa maneira ele chega às suas aflições, dúvidas, percepções; não há motivos para enganar-se a si mesmo. Paro por aqui, como um grande amigo meu assinalou bem, a maioria das sinopses d'A trégua entregam o ouro, isto é, o que é essa trégua. Não vou fazer isso. Limitarei a dizer que o começo do descobrimento da trégua, aquele até meio epifânico, quando alguém se dá conta de algo anteriormente trivial, mas que se revela ulteriormente como vital, é um dos momentos mais lindos da literatura que já li.
   Um romance escrito numa linguagem simples, que flui com facilidade. Somos continuamente colocados diante de nossos sentimentos nesse romance que exprime o que muitas vezes o leitor gostaria de assinalar, através da escrita.
   Não se passando incólume por esta leitura, reflita se vivemos entre tréguas.
Do mesmo autor: Não cheguei a ler algum outro romance de Benedetti, infelizmente, porém aceito sugestões.

3) Memorial do convento (1982) - José Saramago


   Um dos maiores mestres da criação literária é o português José Saramago. Não só na criação, porém, também, no uso de acontecimentos históricos para, a partir daí, construir histórias incríveis (talvez realmente não críveis), não com uma pitada de ironia, sim provendo-se de tudo o que essa figura de linguagem pode oferecer: o ridículo, a hipocrisia, o riso que consiste na crítica velada etc.
   Em Memorial do convento, Saramago, usando como subterfúgio escrever uma obra sobre a construção de um convento em Mafra no século XVIII, inventa histórias paralelas maravilhosas. Somos inevitavelmente atraídos pelo pouco ortodoxo casal Baltasar e Blimunda, que se juntam ao padre Bartolomeu de Gusmão para a construção de uma passarola; ela voaria com o poder de várias vontades que seriam recolhidas por Blimunda, aquela com o poder de enxerga o interior das pessoas.
   Saramago não tem pudor em acrescentar personagens e objetos de caráter fantástico numa prosa realista. A passarola, as vontades, a figura do diabo; tudo isso tem um objetivo: de ressaltar certa realidade.
   É nesse romance também que há uma das passagens mais espetaculares que já li: "Em cima deste valado está o diabo assistindo, pasmando da sua própria inocência e misericórdia por nunca ter imaginado suplício assim para coroação dos castigos do seu inferno." O diabo assistindo ao trabalho subumano a que os homens estão sendo submetidos para que se construa um convento. Lembram-se da ironia? pois é.
   Acostumar-se com o estilo de Saramago pode exigir algum esforço, mas ele é extremamente válido. Depois que isso acontece, a leitura flui da maneira como o autor gostaria.
Do mesmo autor: Talvez Ensaio sobre a cegueira seja o melhor romance para que se comece a ler Saramago. Memorial do convento tem um começo levemente truncado que pode desanimar um pouco os leitores de primeira viagem. De todas as obras que eu tenho conhecimento do autor, nenhuma é fraca, o gosto de cada um que lê acabará diferenciando-as em termos de qualidade. A viagem do elefante, Caim, O ano da morte de Ricardo Reis, Jangada de pedra e O evangelho segundo Jesus Cristo são todas obras que você não irá se arrepender de passar certo tempo com elas, assim como eu não me arrependi.

2) Angústia (1936) - Graciliano Ramos


   Este é o romance que consolidou Graciliano Ramos como um dos maiores escritores da literatura brasileira. O escritor alagoano retrata nesta obra-prima a vida de um sujeito comum, Luís da Silva, que perde sua sanidade por motivos exteriores - uma atmosfera extremamente degradante toma conta da estória - mas, principalmente, pelos reflexos do que ocorre, ao seu redor e consigo mesmo, em seu interior. Quem vê tudo e conta aquilo que enxerga é o próprio protagonista; se algo o perturba, o acomete, por exemplo, isso será transferido para a obra. O que o acomete é a insanidade; o estopim é um amor materialmente roubado, porém, com o decorrer do romance, muitos outros fatores que afligem Luís da Silva vem à tona.
   A linguagem torna-se refém de uma mente tresloucada que o vai-e-vem temporal mostra com clareza. O protagonista vai perdendo suas faculdades mentais nesse processo de confissão e nos leva conjuntamente; percorremos seus delírios, atestados por imagens que aparecem muitas vezes em associações livres.
   O nome do romance define a sua atmosfera. Não é, definitivamente, uma obra simples de ser lida. Ela aturde, incomoda, mas quando adentramos o cerne de Luís da Silva, não há mais escapatória, somos presos por suas angústias. A tragédia do homem medíocre que não o queria ser; é isso que é encontrado aqui.
   Angústia é, disparadamente, o romance mais introspectivo de Graciliano Ramos, sem deixar de lado as indisposições que o meio externo causa. Por conta desses fatores que considero esta a maior obra do escritor alagoano. Com toda certeza é um dos romances mais poderosos, que mais me afetarem durante a leitura. Ele é altamente denso, mais nos temas que trata do que na linguagem empregada; esta ainda é, na medida do possível, essencial para as impressões que o autor quer passar; como Ramos sempre escreveu: sem exageros, meticuloso, um mestre, um escultor de palavras.
Do mesmo autor: São Bernardo e Vidas secas são leituras indispensáveis para quem aprecia a obra de Graciliano Ramos. Adiciono, ainda, como essencial, a autobiografia romanceada Infância. Talvez o seu mais belo livro.

1) Crime e castigo (1866) - Fiódor Dostoiévski

    
   A grandíssima literatura russa não poderia estar fora dessa lista; ou melhor, o maior pensador da literatura ocidental, aquele que deu base à teorias filosóficas, principalmente a existencialista, que só seriam debatidas mais a frente, aquele que analisou psicologicamente o ser humano com profundidade raríssimas vezes encontrada: Fiódor Dostoiévski.
   Em Crime e castigo nos deparamos com a história do jovem intelectual, porém, pobre, Raskólnikov que elabora uma teoria no mínimo interessante, que acredito pela qual muitos são adeptos; ele divide a raça humana em dois tipos: a dos ordinários e a dos extraordinários, sendo que esses últimos se encontram em um número excessivamente menor e, por serem superiores, tem o direito de violar códigos morais. Partindo da pobreza que assola a si e a sua família, e vendo-se como extraordinário, o protagonista decidi matar uma velha agiota, parte da escória da sociedade. Entretanto, não só mata a ela, mas também a irmã da velha, pois ela o viu cometendo o delito. Tirar a vida de uma inocente não estava em seus planos. No entanto, o homem superior teve de fazer isso, caso contrário iria para a cadeia, cumpriria uma pena longa, o que a sua própria teoria rejeitava que acontecesse com sujeitos do seu tipo.
   O castigo de Raskólnikov é rigorosamente psicológico. Ele não consegue lidar com o seu crime, vê-se angustiado, febril, aturdido, delirante. Sua vida se instala num inferno, a luta se trava entre ele e sua consciência, num fluxo de pensamentos que tende a enlouquecer um pouco até o próprio leitor.
   Além dos pensamentos de Raskólnikov, Dostoiésvski revela diversos pontos de vista em diálogos extremamente densos, entre eles os mais intrigantes ocorrem entre o progonista e o investigador Porfíri.
   As obras desse escritor russo suscitam até hoje debates, que, creio eu, não irão terminar, por conta da profundidade de suas discussões. Ele coloca à prova o ser humano e suas várias contradições, como ele mesmo as tinha, tratando de religião, moral e outros preceitos vigentes em nossa sociedade que podem levar a autodestruição do ser.
   Crime e castigo é denso, pesado, longo, porém extremamente interessante. Exige muitas vezes que o leitor pare, tome um fôlego, reflita e continue. Assim como em Angústia de Graciliano Ramos, não é a linguagem o principal empecilho para a adoração da obra, mas, sim, do que a obra trata, como ela a faz, o que ela suscita. Uma obra-prima de 1866 que se encontra sempre atual.
Do mesmo autor: Acredito que Os Irmãos Karamázov sintetiza melhor o que é o romance, aquele gênero que pode abarcar todos os outros. Nele tudo cabe: poesia, contos paralelos, memoriais, música etc. Além disso, essa enorme obra apresenta, acredito, os três personagens mais fortes da história da literatura, os três irmãos. Ademais, destaco das obras que li de Dostoiévski: Notas do subsolo, Memórias da casa dos mortos, O idiota e Os demônios.

(Cometi, provavelmente, muitas injustiças aqui; mas é isso, espero que tenham gostado da lista. O que posso atestar sem medo de errar é que são todos romances com alto valor qualitativo. Entretanto, vocês podem gostar ou não deles; essa já é uma questão mais subjetiva; porém, observar que todos têm seus méritos é de extrema importância. Abraços)

Link para a primeira parte da lista: http://www.aolugaralgum.blogspot.com.br/2012/12/a-lista-primeira-parte.html

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

À lista (primeira parte)

   A existência desse blog assaltou-me e - ao invés de roubar algo, como aquele verbo comumente infere, deu-me uma ideia - a de postar algo por aqui. Pensei em alguma estorinha que ocasionalmente, devido aos enormes hiatus no qual esse espaço sofre, dá as caras por aqui. Entretanto, na preguiça do criar jaz meu corpo, por conta disso resolvi fazer uma lista, sim, uma lista! Sobre o quê o leitor fantasma perguntaria. Sobre os 10 romances de maior qualidade que - obviamente - já li nesse período de tempo, nem tão grande, mas, consideravelmente razoável, a que me dedico à leitura de obras literárias. Levando em conta que só posso enaltecer aquilo que conheço, no caso, aquilo que li, é difícil alguém ter algum conflito no que tange às minhas escolhas, a menos que esse alguém tenha conhecimento de, pelo menos, grande parte da minha carga de leitura feita até o presente momento. Meu intuito não é, de maneira alguma, suscitar discussões menos brandas, porém, sim, tentar, de alguma forma, a partir dessa lista, incentivar o conhecimento dos livros que aqui serão citados. Espero comentários, mesmo que sejam para ir contra minhas ideias; debates normalmente são frutíferos. Fiquem à vontade para dar dicas de obras também, elas sempre são bem-vindas.
   As escolhas foram árduas e é importante frizar que, do primeiro ao décimo, se fosse uma corrida, poucos milésimos de segundos os separariam.
   Dividirei em dois esse post: o primeiro, obviamente, do décimo ao sexo, e o segundo, o restante. Faço isso com o pensamento de não ser tão enfadonho.
   Não é meu objetivo mencionar 10 romances que devem ser lidos antes morrer ou algo com tal dramaticidade; o meu critério foi subjetivo, os romances que mais me atraíram estão aí, me desculpem se deixei de fora vários cânones da literatura mundial, mas os romances listados aqui foram de mais valia no que tange ao meu agrado, apenas isso.
   Por último, decidi escolher apenas uma obra de cada autor, para que haja certa diversificação autoral. Entretanto, não deixarei de lado obras grandes dos autores que conheço mais aprofundadamente.

10) O passado(2003) - Alan Pauls



   Para o décimo lugar fiquei entre duas obras: esta e  Dois Irmãos de Miltom Hatoum. Como a literatura contemporânea brasileira estará aqui presente, decido ceder espaço à contemporaneidade literária argentina com a genialidade de Alan Pauls. Lançado em 2003 em seu país de origem e em 2007 por aqui - pela Cosac Naify - O passado trata principalmente de Rímini que, sem explicações maiores, separa-se de Sofia após 12 anos de relacionamentos. O romance é uma construção persistente do passado, o foco da narração, na maioria da obra, estabiliza-se em Rímini, porém a sombra, Sofia, está presente como coadjuvante dentro, mas, também, persistindo exteriormente no protagonista. Fotos, muitas foram tiradas, após o rompimento cabem aos dois decidir como se dará a separação dessas milhares de imagens - o passado físico. Não entrarei em maiores detalhes sobre o enredo, mas as desventuras, as estórias em paralelo, o estilo único de Alan Pauls: tudo isso faz com que essa obra seja única, uma explosão de sentimentos levada às últimas consequências em suas descrições.
Do mesmo autor: A história do pranto também vale a pena, seria até interessante lê-lo antes de O passado, para que o estilo de Alan Pauls seja conhecido e não haja tanto choque.

9) Amada (1987) - Toni Morrison


A vez agora é da literatura americana e de seu contexto político-social retratado de maneira chocante em Beloved (br: Amada). Romance que também nos leva ao passado, sendo ele cruel, demasiado traumático. Sethe, a protagonista da obra, foge da fazenda onde era escrava, no sul dos EUA, para o norte e ,assim, obter sua liberdade. Toni Morrison narra com brilhantismo a saga de Sethe e outros (ex) escravos, colocando em questão a permanência do trauma na mente de homens e mulheres que passam por situações subhumanas, apenas com o objetivo de sobreviver. O trauma se materializa na figura de Beloved, uma jovem que aparece sobrenaturalmente em frente a casa de Sethe.
Da mesma autora: Infelizmente não li mais nada de Toni Morrison, mas logo o farei, pois apenas a leitura de Beloved me cativou fortemente. Agradeço se houver alguma sugestão de leitura.

8) O encontro marcado (1956) - Fernando Sabino


    Não é tão simples assim encontrar autores que escrevam com tanta simplicidade, mas, ainda sim, abordando temas extremamente relevantes de maneira aprofundada; um deles é Fernando Sabino, que não é lá tão prestigiado na maior parte da crítica literária. O encontro marcado é um romance de uma vida, a do protagonista, Eduardo. No estilo informal de Sabino, a leitura nos atrai mais e mais, as façanhas, frustrações, dúvidas, intermináveis conflitos internos de Eduardo são espelhados diretamente para o leitor. O grande triunfo desse escritor mineiro é conciliar brilhantemente uma linguagem coloquial com temas de certa profundidade. É um romance que não deve ser lido, apenas o é por ser encantador, atraente a partir da primeira página. Essa obra nos busca no nosso âmago: é impossível passar ileso por ela.
Do mesmo autor: Sabino escreveu principalmente crônicas e contos, com qualidade inquestionável. Porém, já que estamos lidando com romances, O grande mentecapto é de uma leitura deliciosa. Vale a pena a leitura.

7) A grande arte (1983) - Rubem Fonseca

   O mundo fonsequiano é maravilhosamente degradado. Sexualmente, politicamente, eticamente, socialmente, tudo isso degradado, a partir, obviamente, da nossa visão de mundo. A grande arte tem como protagonista o advogado criminalista Mandrake, mais detetive (sempre fracassando) que advogado, na realidade. Esse encantador canalha é quem nos guia nas várias tramas de um romance que retrata uma sociedade única, na qual nos simpatizamos por assassinos, por amorais, por cínicos. Não se alarme, dentro do universo de Rubem Fonseca isso é altamente normal; ele é um grande construtor de personagens bizarros que nos atraem pelas suas justificativas, seus traços de humanidade.
   A grande arte pode fazer referência ao manejo preciso de armas brancas. Ela é, também, no entanto, a grande arte de escrever e criar; o trabalho do ficcionista que nesse romance é genial, sem nenhum medo de usar esse vocábulo.
   Não há necessidade de comentar o enredo desta obra-prima, ele fala por si só no exato momento que começamos sua leitura. Leitura, aliás, que flui com facilidade, com diálogos bem construídos, ora cômicos, ora extravagantes, ora supérfluos. Subliteratura nada! A grande arte é a prova de como o romance policial, bem construído, pode ir muito além do entretenimento.
Do mesmo autor: Fonseca é mais conhecido pelos seus contos; de qualquer modo, os romances O caso Morel e, principalmente, Agosto confirmam em qual arte este autor é gênio: ficcionalizar.

6) O perfume (1985) - Patrick Süskind

   Acredito que essa seja uma história minimamente conhecida, já que o livro foi transposto para o cinema em 2006. A narrativa se passa no século 18 na França e apresenta uma atmosfera deteriorada, sufocante, fétida, cheirando a urina, merda, madeira podre, enxofre etc. Num parto extremamente bizarro, como se fosse cuspido, Grenouille nasce, uma figura que não enternece a ninguém, pelo contrário, enoja a todos sem uma razão plausível, aparentemente. Ele não transmite nenhum odor, no entanto é capaz de capitá-lo com agudez sobrenatural. São essas duas características, em termos gerais, que dão vida à narrativa.
   Grenouille tornou-se logo um mestre na arte de fazer perfumes e encontrava, de modo contido, grande prazer nessa atividade. Entretanto, seu maior prazer era preservar a fragrância de jovens virgens. É na jornada pela captura do melhor odor possível que o protagonista mata, pois é a única maneira de prendê-lo em sua forma mais original possível.
    Süskind constrói a história de um sentido levado ao extremo, ao prazer, ao assassinato. Grenouille é escravo de seu olfato, como algumas vezes somos de qualquer outro sentido; ele o controla, deixando-o sem livre arbítrio, ele deve capturar essas essências, não há outra saída.
   O perfume descreve de forma fenomenal a jornada de um estranho, um serial-killer que não odíamos, pois retrata um egoísmo puramente humano na busca do maior poder possível.
Do mesmo autor: Caso não esteja enganado, O perfume é o único romance do alemão Patrick Süskind, no mais ele escreveu novelas e uma peça de teatro. Caso tenham algo a me indicar dele, por favor o façam, já que esse romance é a única leitura que tenho desse escritor, pelo menos nessa obra, genial.

(A segunda parte do post estará por aqui até o dia 6 de Janeiro, no máximo. Abraços)